0146 - Como a qualidade da interação humana influencia o resultado da IA
agenteGPT – desde março de 2023 compartilhando ideias e experiência de usuário.
No próximo dia 21 de março, a agenteGPT completa seu terceiro ano e, no decorrer do período, li e ainda leio muitos comentários com críticas e observações que soam óbvias e até simplórias sobre o que o ChatGPT, o Gemini e outras ferramentas de IA generativa entregam. Isso é recorrente em redes sociais e sites de conteúdo tech ou não. Parece que todos querem prato pronto [como já abordei aqui na newsletter], mas, se o resultado é insosso, a culpa é da IA...
Há o desejo por algo finalizado antes mesmo de qualquer interação. O “pronto” elimina o processo, exclui a necessidade de ajustar, revisar, escolher, assumir. Consome-se. Não se participa. Talvez parte da frustração com a IA generativa esteja ancorada exatamente nesse desejo. Espera-se que a ferramenta entregue algo completo, sublime e publicável sem que o usuário precise fazer o básico: o trabalho intelectual que antecede qualquer produção. Quando o resultado vem sem sal, conclui-se rapidamente que a tecnologia é superficial.
Mas essa conclusão raramente examina com profundidade a natureza da interação que produziu aquele resultado. Por isso, ao final desta leitura, talvez a pergunta não seja sobre a ferramenta, mas sobre se você realmente entendeu como usá-la.
Como a IA responde
Ferramentas generativas trabalham com padrões e probabilidades. Reorganizam informação com base no “input” que recebem. Isso significa que a qualidade da saída depende diretamente da qualidade da entrada.
Quando a pergunta é ampla, imprecisa ou vaga, a resposta tende ao que é estatisticamente mais provável. É por isso que tantas respostas parecem semelhantes: interações semelhantes produzem estruturas semelhantes. A previsibilidade, muitas vezes apontada como limitação da tecnologia, pode ser apenas o sintoma de uma interação conduzida sem intenção clara.
Nesse sentido, a IA funciona como espelho. Devolve o grau de clareza, densidade e delimitação que recebeu.
Existe uma expectativa implícita de que profundidade seja um recurso acionável. Acrescenta-se “seja mais profundo” ao prompt e espera-se que o texto ganhe densidade automaticamente. Mas profundidade é construída antes mesmo da escrita e, portanto, antes da interação. Depende de tese, recorte, contraponto, contexto e julgamento. A IA pode ajudar a organizar esses elementos quando eles já estão presentes. Pode expandir, sugerir ângulos, propor objeções.
Onde entra a intenção
Quando alguém critica a superficialidade da IA, talvez esteja ignorando que profundidade exige intenção clara na interação. O uso mais raso da IA é aquele que a transforma em delegação do pensamento. Insere-se um comando e a etapa de reflexão é encerrada. Nesse modelo, a ferramenta deixa de ser instrumento e passa a ser substituta.
Quando a IA é utilizada como “ambiente de diálogo” para testar hipóteses, explorar argumentos, listar possibilidades e alternativas, amplia a capacidade analítica do usuário. Quando é usada como atalho para evitar o esforço intelectual, o resultado tende a refletir essa tendência ao vazio. Ou seja, o furo não está na atualização do modelo, mas na qualidade da condução humana.
A metáfora culinária ajuda a esclarecer. Um prato pode ser preparado com os mesmos ingredientes em cozinhas diferentes e, ainda assim, ter sabores completamente distintos. O que muda não é a lista de insumos, mas as decisões tomadas durante o preparo. Na produção intelectual, esse “molho” é o julgamento. É o momento em que se decide cortar o que é genérico, aprofundar o que está superficial, assumir um posicionamento menos confortável - isso é a etapa fundamental na rotina de uso da IA generativa [falo com propriedade].
A IA oferece ingredientes organizados. Pode até sugerir combinações mais ousadas. Mas não pode decidir qual sabor você deseja sustentar publicamente. Essa decisão continua sendo do usuário.
O que realmente importa
Talvez a discussão sobre superficialidade esteja mal formulada. A questão não é se a IA é profunda ou rasa por natureza. A questão é como a qualidade da interação humana influencia o resultado que a inteligência artificial generativa produz.
A tecnologia amplia aquilo que já está presente na interação do usuário com a IA. Se há clareza, a IA amplifica clareza. Se há rigor, organiza rigor. Se há descuido, entrega algo esquecível.
A discussão pode estar deslocada porque ainda há um desconhecimento estrutural sobre o que significa usar IA generativa. Muitos acreditam que estão utilizando a ferramenta quando, na prática, estão apenas solicitando uma resposta ou fazendo uma busca. Inserem um comando, recebem um texto e avaliam o resultado como se ele devesse ser definitivo. Se o material não parece pronto o suficiente, conclui-se que a tecnologia é limitada. Mas essa expectativa pressupõe que a IA foi criada para substituir o processo intelectual, quando, na verdade, foi concebida para ajudar a reorganizá-lo.
Repetir também é pensar
Enquanto anotava as ideias para desenvolver este texto, apareceu na curadoria um estudo mostrando que repetir um prompt ou reforçar a instrução dada à IA pode melhorar o desempenho de ferramentas como ChatGPT e Gemini. Em vários testes, de acordo com o estudo “Prompt Repetition Improves Large Language Model Performance”, a repetição aumentou a precisão das respostas sem prejudicar outros aspectos da performance.
O dado chama atenção. Mas o que revela é ainda mais interessante: demonstra [ou comprava minha tese até aqui] que a forma da interação influencia diretamente o resultado - NÃO PEÇA, INTERAJA.
Não se trata apenas do conteúdo do pedido, mas de como ele é estruturado e reforçado. Ao repetir ou reiterar uma instrução, o usuário está, na prática, temperando a objetividade da direção que deseja que o ChatGPT, o Gemini ou qualquer outra plataforma siga. Está dizendo, com ênfase: “é isso que importa”. A IA responde a essa ênfase, estabelecida na relação entre humano e máquina.
Isso reforça uma ideia central desta reflexão: o desempenho da IA não é algo isolado na máquina. Mas emerge da qualidade, da clareza e da condução da interação com a plataforma. Repetir, reforçar, especificar e orientar não são detalhes operacionais, mas, sim, parte do processo.
Em cerca de 70 comparações feitas no estudo envolvendo diferentes tarefas e modelos, a repetição literal do prompt melhorou o desempenho em 47 casos, sem registrar pioras relevantes nos demais. Ou seja, reforçar a instrução não apenas ajudou, como não prejudicou a performance geral.
Em tarefas estruturadas que exigiam precisão posicional — como identificar elementos específicos dentro de listas longas — os ganhos foram ainda mais expressivos. Em um dos experimentos relatados, a taxa de acerto saltou de aproximadamente 21% para mais de 97% apenas com a repetição do comando original.
E afinal, o que a IA faz?
Esperar que a IA entregue algo completamente pronto e acabado, tipo pipoca de micro-ondas, sem participação ativa [ou mínima] do usuário, é como esperar que ingredientes se transformem em prato sem que alguém os cozinhe. A ferramenta pode organizar, sugerir, estruturar. O que a IA não pode fazer é assumir intenção, responsabilidade ou julgamento.
Provavelmente, a frustração de muitos usuários não seja sinal de falha tecnológica, mas de uma compreensão ainda imatura sobre o papel da IA generativa. Não se trata de apertar um botão e aguardar genialidade automática. Trata-se de interagir, iterar, revisar e decidir, sem eliminar o trabalho intelectual.
Se o resultado parece sem tempero, talvez não seja porque a cozinha falhou. Talvez ainda estejamos esperando que alguém cozinhe por nós.
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PESQUISA
IA rotina de 87% dos brasileiros
A inteligência artificial já é parte do cotidiano dos brasileiros. Pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT, revela que 98% dos brasileiros afirmam conhecer ao menos uma ferramenta de IA, enquanto 87% já utilizaram algum aplicativo ou site do segmento.
O estudo indica ainda que 75% dos internautas brasileiros consideram seguro utilizar inteligência artificial em serviços públicos. O levantamento mostra que a tecnologia está presente em atividades rotineiras, como apoio aos estudos, busca por informações, organização de tarefas e demandas profissionais.
Assista ao comentário de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
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NOS EUA
ChatGPT registra 1 milhão de mensagens semanais sobre notícias locais
A busca por notícias locais confiáveis nos Estados Unidos já movimenta cerca de 1 milhão de mensagens por semana no ChatGPT. O interesse se concentra por temas comuns da vida diária [eventos comunitários, empresas locais, crimes, emergências, legislação, tribunais e políticas públicas]. Com a chegada da tempestade de inverno Fern, em 17 de janeiro, termos como “clima”, “desastres” e “fechamento de escolas” mais que quadruplicaram nas buscas.
As informações estão na newsletter OpenAI Global Affairs.
IA E JORNALISMO
Pesquisa sem clique e queda no tráfego
O crescimento dos AI Overviews do Google [resumos gerados por IA na busca] está acelerando as chamadas “pesquisas sem clique”, reduzindo o tráfego para sites jornalísticos. É o que revela relatório recente da Ahrefs, baseado na análise de centenas de milhares de buscas informativas. Confira os destaques:
Respostas diretas na SERP: Os AI Overviews apresentam resumos completos no topo da página, diminuindo a necessidade de clicar em links externos.
Queda na taxa de cliques (CTR): A presença de um resumo de IA pode reduzir os cliques em até 58%, inclusive para o primeiro resultado orgânico.
Pesquisas mais afetadas: Consultas informativas como “O que é…?”, “Porque acontece…?” e “Como funciona…?” sofrem maior impacto.
Mudança no papel do Google: A plataforma deixa de atuar apenas como intermediária e passa a fornecer respostas sintetizadas, reformulando conteúdos de múltiplas fontes.
Impacto no jornalismo digital: A tendência pode reduzir a visibilidade de meios especializados e alterar hábitos de consumo, com menos leitura de artigos completos.
O relatório conclui que o tráfego orgânico não desaparece, mas já não pode ser considerado garantido, mesmo para conteúdos bem posicionados nos resultados de pesquisa.
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PLIM-PLIM
Núcleo de IA na Globo
O jornalismo da TV Globo anunciou a criação do núcleo de estratégia para o planejamento de grandes coberturas e suporte às rotinas dos telejornais nacionais, com destaque para a implementação de soluções baseadas em inteligência artificial. O principal braço do núcleo será uma equipe totalmente dedicada ao uso de IA aplicada à produção jornalística.
De acordo com o comunicado, o núcleo chega com a missão de:
Mapear gargalos tecnológicos e organizacionais;
Propor e implementar soluções estruturais;
Atuar em parceria com outras áreas da empresa;
Apoiar as equipes de cada produto sem interferir na autonomia editorial.
Como parte do projeto, a Globo lançará a Academia de IA do Jornalismo, voltada à capacitação no uso de inteligência artificial.
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ASPAS
Para abrir diálogo
“Estima-se que cerca de um terço dos conteúdos digitais que alimentam e sustentam a IA venham de veículos jornalísticos. Por isso, nada mais justo e natural que essa produção de terceiros, que tem um custo, seja remunerada por outra atividade comercial que faz uso dela”.
Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), ao comentar a notificação que a entidade, junto com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), e entidades da música e dos direitos autorais, encaminharam para empresas desenvolvedoras de inteligência artificial para cobrar diálogo e respeito à legislação sobre uso de conteúdos protegidos. “A notificação é um chamamento ao diálogo e à negociação, bem como ao respeito às leis vigentes”, diz Rech.
Segundo as organizações, a utilização de materiais jornalísticos e culturais por sistemas de IA depende de autorização legal e deve ser remunerada. As entidades defendem a negociação como caminho para a convivência entre jornalismo e tecnologia, mas ressaltam que, na ausência de acordo prévio, os produtores de conteúdo poderão recorrer à Justiça. A notificação se estende a todas as plataformas e desenvolvedores que utilizem ou pretendam utilizar conteúdos protegidos de seus associados.
NO RADAR DA CÚPULA SOBRE O IMPACTO DA IA
Quase consenso
Brasil, França e Índia se unem em defesa da regulação mundial da inteligência artificial [Jornal Nacional]
Líderes de Brasil, França e Índia protagonizam cúpula em Nova Déli para defender regras globais e multilateralistas para a inteligência artificial, ressaltando a importância de proteção de direitos, segurança e governança humana da tecnologia.
Papel estratégico
Na Índia, Lula defende governança global da IA liderada pela ONU [Agência Brasil]
Em discurso na Índia, presidente defende regras multilaterais para garantir uso ético, seguro e inclusivo da tecnologia.
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